Treinar em pelotão: é certo???

Treinar em pelotão: é certo???

Treinar em pelotão: é certo???

Antes de mais nada, minha intenção aqui não é dizer o que está certo ou o que está errado, pois cada um tem o seu objetivo e cada treinador tem a sua metodologia. Acho o treino em pelotão muito divertido, sociável e muito descontraído, mas questiono o verdadeiro resultado do mesmo, quando falamos de melhorar a performance, principalmente no triathlon.

O que escrevo neste post é o relato de alguém que treina ciclistas e triathletas e que já fez muito treino em pelotão com os mesmos. Depois de muita análise eu posso dizer, “Eu errei”. Coloco aqui a minha experiência e muitas das análises que fiz dos treinos de meus alunos e atletas, além de pesquisas que fiz sobre o assunto, pois acredito que estejamos falando de algo bem frequente nos treinos por aí afora.

Pois bem, começamos falando de ciclismo e porque que ciclista treina em pelotão. Acredito que seja meio óbvio falar, mas o ciclismo é uma prova feita em grupo, onde estrategicamente o ciclista procura se posicionar no pelotão da melhor forma, para que assim possa economizar energia. Quando falo em economizar energia, entenda-se como consumo menor de O2 e menos depreciação de células musculares.

Diversos estudos realizados e trabalhos estatísticos com ciclistas vencedores de etapas ou provas nos Estados Unidos, dizem que os mesmos trabalham na sua maioria, abaixo do limiar anaeróbio em grande parte do tempo. Numa prova onde as médias de velocidade sempre ficam acima de 40 km/h, há de se convir que poucos conseguem fazer isto sem economia de energia, não se infiltrando na massa do pelotão ou executando um bom revezamento numa fuga. Existe assim uma necessidade de treinamento de questões técnicas e variáveis específicas que permitam ao ciclista se manter no grupo e consequentemente poupar energia para um esforço maior, num momento decisivo como o Sprint final, uma fuga ou um ataque numa subida qualquer.

O ciclista de estrada também treina sozinho, principalmente os contra relogistas, que tem de manter um esforço constante e muito intenso durante um certo tempo. Também existem outras situações como os treinos de subida em colina, média e alta montanha. Aqui a influencia do pelotão é muito pequena pra não falar quase nula. Temos também os sprints, além de treinos para se melhorar a capacidade anaeróbia, o VO2 e o Limiar de Lactato. Se pegarmos um panorama geral do treino de um ciclista de alto rendimento, a maior parte do tempo é individual, pois existem variáveis que só podem e devem ser trabalhadas desta forma. Outras variáveis específicas como o trem de embalo no Sprint, só podem ser treinadas e ensaiadas em grupo.

Agora vamos falar de triathlon. Se notarem, falei bastante sobre estratégia de se economizar energia, mas será que o triathleta também deve trabalhar variáveis para isto acontecer??? Quando falamos de produção de energia, o simples fato de estar atrás de uma outra pessoa não faz com que o triathleta deixe de ter a sua própria referencia de treino???

É fato, o ciclista chega a poupar até 80w na média do treino, quando está no vácuo de outra bicicleta e isto pode aumentar dependendo de sua posição, da pessoa que está a sua frente e do ritmo no pelotão, ou seja, você passa a trabalhar com a referência do grupo e não a individual e quando falamos de triathlon, a não ser as provas onde o vácuo é permitido, falamos de um esporte solitário, onde a estratégia de poupar energia, a não ser na natação e talvez na corrida, não existe, ou pelo menos no ciclismo (triathlon), o vácuo é considerado ilegal e não deveria existir.

A parte fisiológica também é uma questão importante, pois as demandas de ciclistas e triathletas são muito diferentes. No triathlon trabalhamos muita resistência de velocidade, esforço constante e isto pode variar muito dependendo do tipo e das condições de prova. Por exemplo, a intensidade no treino de um Ironman é uma e no Sprint (short) e standard (olímpico) é outra. Dificilmente se melhora um VO2 de um ironman, diferente do triathleta de distâncias mais curtas, onde as frequências de trabalho geralmente estão acima do limiar. No ciclismo as variações são bem maiores, pois as situações de prova são bem diferentes. Portanto, o que temos aqui, são esportes distintos. O simples fato de ter alguém a sua frente somando-se a isto a vontade instintiva do ser humano em buscar sempre o mais confortável, praticamente remete aos triathletas, que façam o mesmo na prova. Quem sabe isto também não explica os grandes problemas que temos nas competições onde não é permitido o vácuo??? Aqueles pelotões enormes que se criam, qual é a estratégia??? Economia de energia!!! Se o triathleta se acostuma a fazer isto no treino, ele assim o fará na prova, até mesmo por necessidade, pois foi “adestrado” desta forma.

Por fim, acredito piamente que atleta e treinador devem sempre avaliar a metodologia de treinamento. Nestes anos aprendi que só há uma maneira de verificar se estamos no caminho certo, que é testando e analisando os treinos realizados. Sugiro todos testarem o que escrevo aqui. Utilizem um potencímetro e ou um frequencímetro e verifiquem como trabalham a parte fisiológica e neuromuscular com e sem vácuo. Temos muitas ferramentas hoje que possibilitam este tipo de análise.

Outra coisa importante, esqueçam o “sentimento” de treino. O famoso “acho que melhorei” não quer dizer muita coisa quando vemos e analisamos números reais. Teste, compare e analise o seu treino juntamente com o seu treinador, e principalmente invista em treinamento. Sugiro sempre aos meus atletas, que buscam melhorar seus resultados, que antes de comprar uma roda bonita ou capacete aerodinâmico, que invistam em ferramentas de resultado e que através dos números, possam obter dados importantes para uma boa evolução.

Bons treinos a todos!!!

Ronaldo Martinelli
5wayscoaching

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